PERDIDAS NA NOITE,
por um homem músico
ou
EU,
e minhas vontades...
Uma vez ouvi um nadador dizer numa entrevista que nadava 8h por dia todo dia e que depois da primeira meia hora, quando o corpo já havia entendido o caminho e todos os movimentos, este seguia sua jornada enquanto a mente divagava.
Isso acontece comigo. Quando se toca uma mesma música mais do que o padre diz "Amém", o piloto automático assume e a mente voa.
E vejo as mulheres.
Ah, as mulheres... Confesso: são meu único vício. Muitos querem uma mulher completa, dita até “perfeita”. Que perda de tempo... Prefiro imaginá-las, percebê-las em cada detalhe e entender que a perfeição do corpo feminino está em ser único, descobrir a exuberante arte Divina da criação de mulheres. A música não existiria sem elas.
O homem é fácil de impressionar, ele se encanta com matemática, com a arte da soma e da multiplicação, com a pirotecnia de números, e quanto mais rápido, melhor. Ele tem a capacidade natural de entender a música, captar a matemática que existe nela. A mulher é diferente, ela não se interessa por números, ela é mais “humanas”. Não é machismo: música é coisa de homem, vide Mãe Natureza, sábia como ela só, deu aos machos de quase todas as espécies o dom de produzir sons para encantar suas pretendidas e conosco não foi diferente. Há, então, que se ter uma certa elegância, ser sutil,
cantabile, amabile, (além duma dose de sacanagem) para transportar a matemática até o universo feminino. A nota certa, no lugar certo, no momento certo, que na confluência dos sons, arrepie os pêlos dos ombros, faça-a rir involuntariamente e, quem sabe até, com muita sorte (em algum sonho que tive) umedecê-las. Sem elas, a música seria um apanhado desconcertante de sons, barulhos competitivos, medindo, nota por nota, o tamanho do pinto de cada músico.
E toco. (Em outras línguas, a mesma palavra que se usa para “tocar”, também significa “brincar”. Nesse sentido, somos privilegiados...)
E vejo as mulheres e imagino, percebo-as. Não nuas, seria fácil demais, uma fantasia barata; grande parte dos homens tem uma percepção de sexo exclusivamente genital. Eu imagino-as mulheres, plenas, e para cada uma delas uma nota, uma frase, um tom, um ritmo, um andamento.
Loira, linda, esvoaçante, corpão, calça jeans, top branco, ar de atleta, esbanjando saúde, duma beleza descarada que quase grita por atenção, que ri no leste da boca com os agudos: tenho vontade de roubar-lhe um beijo, naquele momento do encontro dos olhos, do vai-não-vai, do frio na barriga. 1 beijo, naquele momento, e nada mais. Não que fosse descartável, mas que fosse sempre aquele momento, tanto faz o antes, tanto faz o depois.
Lânguida, morena, alta, bocão, toda de preto, está com alguém mas não está acompanhada, conversa por educação e vez ou outra olha, quase repreensiva, quando a música rouba-lhe por completo a atenção: quero abraçá-la por trás contra a parede, senti-la, da minha altura, entrelaçando tudo da cintura para baixo, e morder a pontinha da orelha. E congelar esse momento.
Rosto de menina, cabelos castanhos, a princesinha das mil e uma horas de salão, a jóia mais preciosa do papai, a boca cheia de
gloss e um sorriso tão ingênuo, de quem não faz idéia do que é a noite, a noite de quem vive na noite, da música tocava, dos salões da vida vivida, que se deslumbra com tudo: tenho um vasto repertório de sacanagens para lhe apresentar. Uma noite não daria sequer para a introdução.
Blusinha de alça fininha, moreninha aveludada, , toda medidinha, proporcional, toda lindinha, um jeito leve, simpática, “a moça dos lenços”, um prendendo os cabelos, outro como cinto, me fez lembrar a brisa da praia no final da tarde, solta seu corpo despreocupada quando o ritmo acelera um pouco: quero sentá-la no meu colo, de frente pra mim e, delicadamente, bem devagar, com a destreza de um cirurgião, conduzir a oeste a alça fininha, descobrir o peito e beijar-lhe, sentir o seio discretamente endurecer e eternizar na lembrança o momento em que contraiu um pouco os ombros e a penugem do corpo se levantou.
Baixinha, loira, cabelo um pouco abaixo da orelha, saia jeans bem curtinha e "que pernas!", que fecha os olhos e passa a mão de norte a sul do colo com as notas looooooongas: deitada, em cima de mim, bem antes de tirar a roupa, pegando-a pelo pescoço com uma mão, a outra mais embaixo, nas costas, ambas firmes, e somente abraçá-la.
Três estrelinhas num céu bronzeado de praia que parecem indicar alguma coisa a sudoeste, me desconcentrando: quero percorrer saia adentro o caminho tatuado, seguindo-as como um Rei Mago.
Mestiça, meio oriental, meio brasileira, de corpo fino, misterioso, o cabelo preto escorrido, negro quase azul, a blusa curtinha que revela a barriguinha sarada é quase uma vitrine, tentando acompanhar as melodias com o quadril: tenho vontade de pousar a língua logo a cima do umbigo e deslizar até o encontro dos seios, sentido suas mãos apertando-me contra seu dorso nu, e parar aí e descer e recomeçar, infinitamente.
De costas para mim, saia rodada, corpo dourado de mulher brasileira, o cabelo ondulado preso, volumoso, e a nuca, o pescoço mais lindo, a nascente do lago de águas quentes escondida na mata fechada de um morro... Há alguma coisa nesse cabelo... Se ela se virasse, ficaria mais fácil saber o que é: quero chegar bem sorrateiro, por trás, soltá-los e ver o que acontece...
A Negra, da pele negra, nêga de Iansã, escorpiana, fogo puro, cabelo todo enroladinho, um pouco acima dos ombros, blusinha verde, calça justinha, corpo sarado - não de academia - de tanto sambar, que debocha dançando, que dispensa todos, qualquer um, só pelo prazer, que fecha os olhos, levanta as sobrancelhas finas e faz mil bocas (de boca fechada) acompanhando o meu improviso: quero vê-la dançar a noite inteira no meio de toda a gente, aí é que está seu esplendor, seu apogeu. Não quero que ela me olhe, muito menos esbarrá-la no salão: ela é a musa negra num pedestal, feita para ser adorada, mortal nenhum há de provar seu corpo senão com os olhos, pois ela é um lembrete da grandeza dos Orixás, uma forma deles dizerem: "Estamos aqui, sabemos de tudo e nós é quem damos as cartas".
Morena dos olhos de jabuticaba, a mais linda de todas, porém tímida, o semblante um pouco perdido, escondendo o corpo trabalhado debaixo das roupas, imagino uma tatuagem escondida que ainda não teve coragem de fazer, aquela que os homens olham e pensam "Essa não é pra mim", que ouve atenta, que rói as unhas quando o grave aveludado parece soprar algo ao pé do ouvido: quero sentar na cama e observá-la, nua, antes ou depois de nada, somente naquele momento, quando ela esquecer que não está sozinha, se entregando ao espelho, mexendo no cabelo, fazendo pose, rindo para si mesma, descobrindo uma grande mulher.
Pensando bem, a Negra, se eu pudesse dar uma mordidinha na bunda dela...